“É nossa missão histórica retratar o Brasil”, defende Pochmann, presidente do IBGE
À frente de uma das maiores instituições nacionais de produção de informações estatísticas do mundo, Marcio Pochmann concedeu entrevista exclusiva sobre o trabalho do IBGE no G20. Ele ressaltou o momento histórico da presidência brasileira do fórum e planos para fazer avançar a o debate global sobre trabalho de cuidado; população de rua; uso e comercialização de dados pessoais.

Por Mara Karina Sousa-Silva/Site G20 Brasil
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é uma das maiores instituições no mundo voltadas para a produção de informações nacionais. No contexto da presidência brasileira do G20, está na liderança dos órgãos dos países-membros do fórum com a função de construir uma fotografia detalhada sobre suas populações, consolidando o retorno do Instituto à arena internacional.
Márcio Pochmann, presidente do IBGE, concedeu uma entrevista exclusiva para o site do G20 em que fala sobre a atuação estratégica em parceira instituições estatísticas dos países-membros do fórum; a repercussão nacional do novo Atlas Geográfico Escolar do país, que traz o Brasil no centro do mapa mundi, numa celebração ao momento histórico em que o país lidera aos debates maiores economias do mundo sobre transição ecológica justa, combate à fome, à pobreza e às desigualdades.
Pochmann também falou sobre os debates sobre a criação de sistema nacional de geociência, dados e estatística, para agrupar informações da população de forma a frente frente ao modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia que operam a comercialização de dados pessoais no mundo, uma demanda das Nações Unidas e que tem sido debatido no G20.
Confira os assuntos abordados pelo economista
Retorno à arena internacional
Após um período em que o IBGE praticamente esteve ausente dos fóruns internacionais no âmbito das estatísticas e geociências, retomamos, desde o ano passado, os diferentes fóruns que existem no mundo. O IBGE passa a ter uma atuação internacional que combina com o protagonismo do Brasil, especialmente no G20, em que entendemos que é necessário essa articulação para refletir o papel das estatísticas e a sua consistência na representação dos dados, a partir de uma perspectiva que não é mais aquela que parte do Norte global.
Atuação estratégica no G20
Nós estamos muito preocupados em considerar essa nova movimentação do mundo. No que diz respeito ao G20, estamos trabalhando em três dimensões das divisões de estatística dos países-membros: 1) com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) na discussão metodológica e de consistência das contas nacionais sobre o tema do trabalho de cuidados, que é realmente algo que vem ganhando dimensão, especialmente pela presença do trabalho remoto. As contas nacionais de formação do PIB (Produto Interno Bruto) dos países não consideram esta parte do trabalho. 2) Com os Ministérios de Desenvolvimento e de Direitos Humanos e Cidadania, estamos trabalhando junto com a UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), em torno da temática do trabalho e moradia em condições de rua, que é uma realidade que o Brasil hoje vive nas grandes capitais. Mas não é um fenômeno isolado, mesmo capitais de grandes cidades do Norte global se encontram diante desta realidade. Não há uma metodologia, um dimensionamento dessas situações que encobrem parcela da população dos nossos países. 3) A realização de uma reunião técnica com representantes dos institutos nacionais estaduais para tratar da temática da juventude. A população infanto-juvenil, dos países G20 para o ano 2050 já nasceu. É fundamental constituir uma metodologia de estatística que permita acompanhar, monitorar o segmento infanto-juvenil dos países G20.
Mapeando as desigualdades no G20
O IBGE construiu uma parceria com o governo do estado do Rio de Janeiro em torno da Casa do G20, no Rio de Janeiro, para produzir de forma sistemática cadernos que possam trazer dados a respeito da realidade dos países do G20. Esse primeiro caderno (Criando Sinergias entre a Agenda 2030 e o G20 – Caderno Desigualdade) focou na desigualdade existente entre os países do G20, que representam a maior concentração da riqueza do mundo, mas são muito desiguais. Essa desigualdade foi mensurada e apresentada a partir dos marcos e indicadores da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. É uma contribuição que nós imaginamos ser necessária para que as informações possam contribuir nas decisões de ministros e chefes de Estado. O ineditismo está em produzir informações que ressaltam as desigualdades nos países, levando em referência, a preocupação que o Brasil está tendo em torno da nova governança global, a fome, a desigualdade e a sustentabilidade ambiental.

Brasil no centro do mundo
O IBGE tem o papel de descrever a realidade. É nossa missão histórica retratar o Brasil. Sempre digo que o Instituto é uma espécie de cartão postal do nosso país, mas também é uma bússola para saber de que direção está indo. Entendemos que, a exemplo da experiência de outros países, reconhecendo que o mundo é uma circunferência, identificamos os países-membros do G20, mas definindo o Brasil no centro do mapa do mundo. É uma celebração do papel do país e o entendimento de que os brasileiros precisam reconhecer e ver o Brasil numa circunstância que não é comum ao longo de sua história, esse grande acontecimento que está em curso que é a liderança do Brasil no G20. De certa maneira, a trajetória brasileira foi sempre quase como um coadjuvante. E o Brasil está tendo hoje um espaço reconhecido internacionalmente, uma recuperação do posicionamento brasileiro. É uma homenagem a esse momento especial em que o Brasil lidera o G20. A repercussão tem sido muito gratificante e nos estimulou a trabalharmos nessa dimensão que o Brasil hoje exerce hoje no mundo, a partir do seu protagonismo em várias frentes, no comércio, na tecnológica, na questão social e na política internacional.
Gestão e uso de dados pessoais
Tem um tema pelo qual o IBGE se debruçou a respeito da construção de um sistema nacional de geociência, estatística e dados. As informações, os dados oficiais, dados públicos produzidos pelos institutos nacionais estatísticos estão se defrontando com o crescimento e o empoderamento de grandes corporações transnacionais, as chamadas big techs. Entendemos que é um ponto importante de ser tratado no âmbito do G20 porque decorre de uma nova forma de subdesenvolvimento, que é os países produzirem ou disponibilizarem seus dados pessoais brutos, esses dados serem trabalhados, aperfeiçoados e transformam-se num grande modelo de negócio. Essas empresas praticamente não geram emprego nas nações, não pagam tributos, operam de longe e colocam a soberania nacional. Essa é uma temática que o IBGE vem trazendo, do ponto de vista de criar um sistema nacional de geociências estatísticas e dados. É algo que não existe de maneira ainda tão completa em diferentes países, sobretudo no G20, mas que a ONU está preocupada em ter um sistema que acople os diferentes bancos de dados do FMI (Fundo Monetário Internacional), do Banco Mundial, da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), por exemplo. Essa é uma grande questão chave nos dias de hoje e que esperamos avançar no âmbito do G20.