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No G20 Social, CUFA e Voz das Comunidades amplificam as vozes populares

No Brasil, 16 milhões de pessoas vivem em favelas, uma população superior a de muitos países. Então, como tratar de reivindicações populares sem escutar estas pessoas? O G20 Favelas e o Favelas 20 surgem, assim, como plataformas de contribuição aos debates globais, com a vocação das favelas à resiliência, à criatividade e à transformação cultural como guias.

19/09/2024 11:00 - Modificado há 4 meses
No último mês, os movimentos que representam as favelas no Brasil participaram do primeiro encontro preparatório para a Cúpula Social, no Rio de Janeiro. Foto: Audiovisual/G20
No último mês, os movimentos que representam as favelas no Brasil participaram do primeiro encontro preparatório para a Cúpula Social, no Rio de Janeiro. Foto: Audiovisual/G20

“A favela é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono”.

Esta é uma adaptação de um trecho do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, um marco da literatura brasileira publicado em 1902. Por que a escolha desta leitura para ilustrar uma ideia de favela? A obra narra a Guerra de Canudos, ocorrida ao fim do século XIX no interior do estado da Bahia entre o Exército Brasileiro e membros de uma comunidade coordenada pelo líder religioso Antônio Conselheiro. Foi no contexto desse conflito que o termo “favela” surge com o significado que hoje conhecemos.

Canudos foi construída junto a alguns morros, entre eles o Morro da Favela, assim denominado em virtude a uma planta farta no local, a Jatropha phyllacantha, popularmente conhecida como faveleira. Após a Guerra, um grande número de soldados que combateram em Canudos desembarcaram no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, sem grandes recursos financeiros. Junto a estes, milhares de negros recém-libertos da escravidão pela Lei do Ventre Livre, sem condições de acesso à moradia. Estes dois grupos dão origem ao Morro da Providência, a primeira favela carioca.

Passados mais de 120 anos desde a ocupação do Morro, as favelas são parte  da história, da cultura e da geografia não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil e, com outras denominações, espalhadas pelo mundo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do último ano dão conta que o país tem mais de 11 mil favelas em sua cartografia, onde habitam cerca de 16 milhões de pessoas, mais de 7% do total populacional nacional. 

Em agosto, Macêdo se encontrou com representantes do Favelas 20, no Rio de Janeiro. Foto: Ascom/SGPR
Em agosto, Macêdo se encontrou com representantes do Favelas 20, no Rio de Janeiro. Foto: Ascom/SGPR
Também no último mês, o ministro esteve presente na Conferência Estadual das Favelas do Rio, promovida pelo G20 Favelas. Foto: Ascom/SGPR
Também no último mês, o ministro esteve presente na Conferência Estadual das Favelas do Rio, promovida pelo G20 Favelas. Foto: Ascom/SGPR

Em 12 anos, o resultado indica uma expansão de cerca de 40% no número de brasileiros morando em favelas. O G20 Social, essa inovação brasileira no G20, buscou e acolheu toda a diversidade favelada, termo hoje já ressignificado. Assim, a Central Única das Favelas (G20 Favelas) e a Voz das Comunidades (Favelas 20) entram no time do G20 Social, como organizações colaboradoras na produção de conteúdo e atuantes na elaboração de pautas e eventos que terão seu ponto máximo de encontro e debates, na Cúpula Social, em novembro.

“Ao envolver líderes globais, governos, sociedade civil e o setor privado nessas discussões, há um potencial de desenvolver soluções colaborativas e inovadoras para problemas complexos que afetam desproporcionalmente as favelas, como mudanças climáticas e a desigualdade. A cooperação internacional pode oferecer novos recursos e tecnologias para enfrentar esses desafios de forma mais eficaz.”, defendeu Erley Bispo, que junto a Rene Silva e Gabriela Santos é co-fundador do Favelas 20. “As questões enfrentadas pelas favelas são, em última instância, questões que afetam toda a humanidade, como a luta por justiça social, equidade e sustentabilidade. Reconhecer essa responsabilidade compartilhada cria um senso de cooperação e compromisso internacional com a transformação social”, acrescentou ele.

Essa visão vai ao encontro do que também propõe o G20 Favelas: grupo liderado pela Cufa junto à Frente Parlamentar das Favelas e à Frente Nacional Antirracista. A iniciativa tem construído conferências em diversos territórios, com pautas que dialogam com as prioridades da presidência brasileira do G20. “Já foram construídas mais de 3 mil conferências por todo o Brasil e em mais de 40 países. Uma iniciativa global com o objetivo de trazer as demandas de quem de fato passa e sofre as problemáticas existentes nos territórios de favela. Colocar a favela no centro dos debates é importante para que alcancemos avanços reais em problemas existentes no Brasil e no mundo, como a questão das desigualdades”, disse  Leticia Gabriella da Cruz Silva, coordenadora nacional do G20 Favelas.

As conferências são feitas em regiões quilombolas, ribeirinhas, centros religiosos, penitenciárias e espaços rurais, para garantir uma jornada e uma abordagem amplas e o mais democráticas possível.

“As atividades que os grupos Favelas 20 e G20 Favelas já fizeram ao longo do ano dão a dimensão do engajamento desse segmento nos três temas prioritários para a presidência brasileira no G20, e que têm impacto direto na vida cotidiana das comunidades. A participação desses grupos no G20 Social mostra a potência das favelas: a força do empreendedorismo, os projetos para combate à fome, por exemplo, e também mostra todo o potencial de trabalho criativo feito nesses territórios.", destacou Márcio Macêdo, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, que coordena o G20 Social. No último mês, o ministro participou de atividades das duas frentes,  no Rio de Janeiro.

Se, por um lado, o encontro das iniciativas da Voz das Comunidades e da Cufa no G20 Social contribui para os  debates globais com a vocação que as favelas têm de resiliência, criatividade e transformação cultural, por outro, a plataforma que reúne as maiores economias do mundo promove o empoderamento dessas comunidades que, historicamente, têm sido excluídas de processos decisórios. Com diversas vitórias ao longo de suas lutas, o Favelas 20 e o G20 Favelas têm, entre tantos outros acordos, um objetivo comum no G20: consolidar a participação da favela e dos favelados nas instâncias do fórum. Até o dia 16 de novembro, dia final da Cúpula Social, diversas atividades ainda ocorrerão organizadas pelos grupos.

Por Franciéli Barcellos

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