Pincéis, câmeras e microfones contra as mudanças do clima: o papel da arte por um mundo justo e um planeta sustentável
Acontece até quinta-feira (7), em Salvador, Bahia, o Seminário Internacional Cultura e Mudança do Clima, evento paralelo do GT de Cultura do G20 que com painéis e oficinas na programação debate adaptação do setor às mudanças do clima e qual o papel da arte para uma transição verde. Participam pesquisadores, estudantes, gestores públicos, trabalhadores culturais e ambientalistas.

Em agosto aconteceu a terceira reunião técnica do Grupo de Trabalho (GT) de Cultura do G20, no Rio de Janeiro. Mas inicialmente o “Rio” que acolheria a reunião seria outro: o Rio Grande do Sul (RS), estado que entre o fim de abril e início de maio sofreu com uma enchente que já figura entre as maiores tragédias de cunho ambiental da história do Brasil. Além do fechamento do aeroporto da capital, um dos motivos que significou a reorganização da reunião para a capital fluminense, pontos de cultura importantes de Porto Alegre, como a Casa de Cultura Mário Quintana e a Fundação Iberê Camargo precisaram fechar temporariamente. Milhares de trabalhadores da cultura foram afetados, o que levou ao Ministério da Cultura do Brasil anunciar investimentos na ordem de 60 milhões de reais ao Programa Retomada Cultural RS.
O que esta introdução busca ilustrar? Os impactos diretos das mudanças do clima ao setor cultural. Se é verdade que os debates sobre sustentabilidade já estão sendo melhor compreendidos em sua interdisciplinaridade com outros campos (econômico, tecnológico, educacional), a conexão com a esfera cultural ainda não é uma obviedade nem no repertório social nem na elaboração de políticas públicas. Neste sentido é que na alçada de suas últimas reuniões, técnica e ministerial, nesta semana, em Salvador, Bahia, o GT de Cultura promove um evento paralelo ousado: o Seminário Internacional Cultura e Mudança do Clima, uma cooperação entre Ministério da Cultura do Brasil com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e a Organização de Estados Ibero-americanos (OEI)
Para além da necessidade de adaptação do setor às mudanças do clima, qual o papel da arte para uma transição verde? Nos primeiros dois dias (4 e 5) de painéis e com o início das oficinas hoje (6), os resultados das diversas atividades do Seminário confluem para uma resposta: se é legítimo que para uma transição efetiva é essencial políticas públicas eficientes e tecnologias inovadoras, é também verdade a primordialidade de uma nova consciência coletiva, e é aqui que entram a cultura e a arte.
“Entendo que exista a setorização financeira, a setorização administrativa, mas a setorização da existência, ela não existe. Somos seres humanos, somos natureza e a gente precisa dessa compreensão para viver. O meio ambiente inspira poesias, telas, danças, a natureza é a nossa grande inspiração de existência, então eu acho que a gente tá acordando para o mundo”, disse a ativista socioambiental Débora Didonê, que participou deste primeiro dia de oficinas. A permacultura também colocou sua expectativa por uma Declaração de Líderes do G20 que se comprometa com a potencialização de financiamentos para essa área e por uma compreensão internacional que não setorize os aspectos sociais “em caixinhas”.
Foi assim que nesta quarta-feira (6) o Seminário realizou três oficinas: “Lideranças Criativas em Ação pelo Clima”, “Acelerando a transição verde do setor cultural” e “Cidades Aquáticas Africanas”, integrando a perspectiva de pesquisadores, estudantes, gestores públicos, trabalhadores culturais e ambientalistas.
Amanhã (7) o Seminário encerra os trabalhos, com as oficinas “Arranjos de governança para ação climática”, “Construindo através do processo: justiça climática nas artes, cultura e comunicação” e o lançamento da pesquisa "Cultura e Clima", desenvolvida a partir de uma metodologia participativa que aborda a intersecção das agendas de Cultura e Clima, no intuito de informar atores, governos e instituições interessadas na temática sobre a importância de criar e promover políticas públicas culturais focadas em soluções para a crise climática, incluindo a preservação de bens culturais e educação climática de agentes públicos.
Jacob Sylvester Bilabel, que ministrou a oficina “Acelerando a transição verde do setor cultural”, destacou a importância do tema figurar dentre os grupos de trabalho do G20, como representação das maiores economias do mundo. “É muito importante que a cultura seja parte do processo do G20, porque reuniões multilaterais como as que ocorrem esta semana são muito importantes nesses tempos loucos. Para ser honesto, a cultura é um dos últimos pontos em comum que temos, a qual todos podemos concordar. Então, podendo nos encontrarmos para falar sobre cultura, podemos nos encontrar sobre outras questões. Temos que continuar estes debates, rumo à COP30”, disse ele, que é diretor administrativo de uma unidade de serviço do ministério federal da cultura alemão para ajudar mais de 20 mil instituições culturais do país a acelerarem sua transição para a neutralidade de carbono.
Ao final, se são os livros, os filmes, as músicas, as pinturas, as exposições fotográficas, as intervenções e espaços culturais ferramentas sociais históricas de representação do espírito do tempo presente e dos desejos e construção de consciência para tempos futuros, pela capacidade de conexão e sensibilização com pautas, é urgente o reconhecimento da cultura como motor de um mundo justo e uma planeta sustentável. Este é um recado importante que este Seminário entrega às maiores economias do mundo, que terão seus ministros de Cultura reunidos na capital baiana nesta sexta-feira (8).
Por Franciéli Barcellos