“Proposta brasileira no G20 de taxar pessoas muito ricas é absolutamente necessária”, afirma milionário americano Morris Pearl
Para Morris, os ricos estão cada vez mais ricos e os trabalhadores estão perdendo a esperança com a desigualdade que só aumenta. A situação chega ao ponto de bilionários terem tanto dinheiro quanto a renda total de alguns países enquanto milhões de pessoas passam fome no mundo.
Por Thayara Martins/ G20 Brasil

Morris Pearl é um cidadão norte-americano muito rico que pensa um pouco diferente da maioria dos seus colegas empresários e investidores. Ele está preocupado com os níveis históricos de desigualdade e concentração de riqueza nos Estados Unidos. Por isso reuniu pessoas abastadas na organização Milionários Patrióticos, que defende, entre outras causas, que pessoas muito ricas paguem mais imposto - proposta defendida pela presidência brasileira do G20. Morris fez uma longa carreira em Wall Street e foi executivo na BlackRock, empresa norte-americana de investimentos e maior gestora de fundos do mundo.
O milionário cresceu em uma família de classe média na zona rural do estado norte-americano de Vermont, perto da fronteira com o Canadá. Ainda na adolescência, desenvolveu o desejo de ser contador e se formou na Escola de Negócios da Universidade da Pensilvânia, mas acabou tornando-se engenheiro de computação. Mudou-se para Nova York e trabalhou por anos construindo modelos computacionais para transações bancárias de investimento.
Morris Pearl concedeu entrevista exclusiva para o site G20 Brasil e falou sobre desigualdade, tributação internacional, esperança e porque, afinal, ele se considera um homem otimista.
Como o senhor decidiu largar a aposentadoria e fundar o Milionários Patrióticos?
Há 20 anos, na época das eleições, eu e minha esposa fomos a uma convenção em Boston, Massachusetts, e lá descobri que, por algumas dezenas de milhares de dólares, você pode ser o melhor amigo de qualquer pessoa. Bem, de quase todo mundo… Ocorreu-me que as pessoas ricas têm muito mais acesso aos nossos líderes políticos. Além do mais, a aposentadoria não estava combinando comigo.
Então, fui trabalhar na BlackRock por um tempo e lá dirigi um grupo que tentava descobrir quanto custariam os resgates bancários. Meus clientes eram o Federal Reserve, dos Estados Unidos, o governo da Irlanda, o governo do Reino Unido, o governo da Grécia e bancos centrais. Nós íamos examinar os bancos para descobrir quanto custariam os resgates. (Um resgate bancário prevê que bancos em dificuldade recebam recursos de dinheiro público ou do mercado financeiro para saldar suas dívidas).
Um dia estava em Atenas, na Grécia, fazendo uma reunião no elegante salão de jantar do último andar da sede de um banco e caminhei em direção à janela, assim ninguém diria que eu estava pegando duas sobremesas no bufê. E, por um momento, pensei que estava assistindo a um desfile e percebi que, na verdade, era uma manifestação.
Eu voltei para algumas dúzias de executivos cujos empregos provavelmente estavam sendo salvos ao receber um resgate bancário e pensei comigo mesmo: estamos realmente fazendo algum bem para o resto das pessoas que sofrem lá fora? Foi aí que decidi que tinha feito o máximo que podia pelas pessoas da Blackrock e fui trabalhar em tempo integral para tentar mudar nosso sistema tributário.
Para que não víssemos os Estados Unidos seguindo esse caminho, o caminho das pessoas desistindo de seu governo. Por isso estou tentando há mais de 10 anos mudar a forma como nossas políticas governamentais funcionam.

O que a organização defende?
No Milionários Patrióticos, somos um grupo de pessoas ricas, principalmente nos Estados Unidos e também estamos recebendo vários membros no Reino Unido, que compreendem que esta crescente desigualdade está desestabilizando não apenas a nossa nação, mas, francamente, o mundo inteiro. Vemos a ascensão do autoritarismo em alguns lugares porque muitas pessoas simplesmente desistiram do capitalismo e percebemos que ele não está funcionando para um grande número de pessoas.
Então, nós estamos trabalhando em três coisas, uma delas é tornar o sistema tributário mais justo. Porque parte do problema são os investidores, como eu, que não trabalham, pelo menos aqui nos Estados Unidos, e pagam muito menos impostos do que as pessoas que trabalham para viver.
Estamos trabalhando com a questão do salário mínimo por hora, temos leis sobre o assunto, mas queremos ver um aumento substancial. E, também, estamos trabalhando para garantir que todas as pessoas em nosso país, e em outros países, tenham o mesmo poder político independentemente de serem pessoas que trabalham o tempo todo e vão votar ou têm milhares de dólares para doar a políticos e gastar em campanha.
Eu tive muita sorte em minha vida porque nem todo mundo cresceu com as oportunidades que eu cresci por vários motivos, muitos dos quais não tiveram nada a ver com nada que eu ou minha família fizemos. Nós estávamos no lugar certo na hora certa, nasci no lugar certo e dos pais certos. Cresci em uma cidade com uma maioria de pessoas pobres, na verdade. Mas desde o primeiro dia foi incutido em mim que eu não iria ficar lá e ser um fazendeiro ou algo assim. Eu iria para a faculdade e seria um profissional e realmente acreditei que eu poderia fazer qualquer coisa. E ainda acredito, é por isso que continuo trabalhando.
E hoje, andando nas ruas, eu vejo a frustração das pessoas, elas estão dispostas a desistir das coisas e só querem algum tipo de mudança massiva em nossa sociedade. Eu entendo que precisamos fazer algo a respeito e vejo que o presidente Lula, no Brasil, está tentando também.
O que o senhor pensa da proposta brasileira na presidência do G20 para taxar os super ricos?
A proposta da presidência brasileira do G20 - de ter algum tipo de imposto mínimo global para as pessoas muito ricas - é absolutamente necessária para colocar algum tipo de justiça no sistema e encontrar uma maneira de garantir às pessoas que elas estão sendo tratadas de forma justa. É algo que dá às pessoas esperança de que as coisas se tornem mais iguais com o tempo e não mais desiguais como tem sido o caso.
A maioria das pessoas hoje não tem mais esperança, e aí param de cooperar e pensam que precisamos de uma revolução. E acho que temos que garantir às pessoas que o sistema que temos é suficiente e tem a capacidade de proporcionar aos seus filhos uma vida melhor. Eu estou envolvido nisso em parte porque tenho dois filhos adultos e quero que minha neta cresça com as oportunidades que tive. E é isso que todos desejam - ver seus filhos e netos crescendo com oportunidades. Por isso estamos tão preocupados com o que está acontecendo, com tanta desigualdade que há por aí. Nós estamos vendo algumas pessoas ficando cada vez mais ricas e mais ricas com bilhões de dólares na conta. Elas têm tanto dinheiro quanto a renda de alguns países. Enquanto isso, centenas de milhões de pessoas não têm dinheiro suficiente para comprar comida, é insustentável.
Como a proposta pode contribuir para a redução da desigualdade?
Em primeiro lugar, aqui no meu país, parte da razão da desigualdade é o sistema tributário injusto. A maioria das pessoas trabalha para viver, elas têm um emprego. Elas ganham dinheiro com seu trabalho e toda semana o dinheiro é deduzido de seu salário para pagar seus impostos. É assim que funciona nos Estados Unidos e em alguns outros países. Mas eu não tenho emprego, não tenho nenhum dinheiro deduzido de nada toda semana. Eu vivo do dinheiro que recebi dos investimentos no mercado de ações. Se eu quiser pagar impostos, posso, mas posso não pagar. Posso simplesmente sacar dinheiro da minha conta da corretora sempre que quiser, porque não tenho nenhuma renda.
Mas alguém que trabalha duro e ganha tanto dinheiro quanto eu (em um emprego, por exemplo) não está pagando muito do seu dinheiro em impostos? Ele pode ganhar a mesma quantia que eu, mas paga muito mais impostos. Logo, eles terão, digamos, menos dinheiro. E, assim, as pessoas que já são ricas estão ficando mais ricas e as que estão trabalhando para viver ou lutando, não. E isso não está funcionando para muita gente. Por isso que se mudarmos isso podemos deter este crescimento da desigualdade.
Se mudarmos o sistema tributário para que as pessoas paguem impostos sobre o dinheiro que ganham, independentemente de como o fazem, seja com um trabalho onde vendem investimentos ou herdem dinheiro de seus avós, e vão pagar impostos da mesma forma. Então, aí os trabalhadores estarão na mesma base que as pessoas que já são ricas.
Como a ideia é vista nos Estados Unidos?
Bem, mudou muito nos últimos anos, há 10 anos atrás cobrar mais impostos de pessoas muito ricas era uma ideia maluca da esquerda. Agora, o presidente Joe Biden abraçou parte da nossa agenda. Ele pediu um imposto sobre o que chamamos de ganhos de capital não realizados, que são essencialmente jogos feitos a partir da subida dos investimentos. Então, essa ideia passou da esquerda maluca para a Casa Branca.
Bem, estamos pedindo ao presidente Biden e à secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, para apoiar as propostas do presidente Lula na reunião do G20. Nós acreditamos que o que o presidente Lula propôs é essencialmente a mesma coisa que o presidente Biden deseja. Mas ainda não vejo consenso nem dentro da administração, mesmo dentro do governo dos Estados Unidos.
O senhor pensa que no futuro todo esse debate pode render frutos?
Eu sou otimista, eu escolhi ver os copos meio cheios. Tenho visto muito progresso sendo feito ultimamente. E, sim, as coisas sobem e descem e cada eleição é a mais importante da nossa vida e o mundo inteiro pode mudar a cada ano. As guerras estouram e os governos vêm e vão. Mas, no longo prazo, estamos fazendo progresso.
Vamos ter sucesso esse ano no Brasil? Não sei. Mas certamente poderíamos conseguir um acordo para estabelecer algum imposto mínimo, algum piso, para as pessoas mais ricas do mundo, como o presidente Lula propôs. Então, estou otimista, acredito que será possível ver algum sucesso após a reunião do G20, no Rio de Janeiro. Eu estou trabalhando para conseguir que, pelo menos, os funcionários do meu governo nos Estados Unidos possam apoiar a iniciativa brasileira de tributação internacional, e isso pode fazer uma enorme diferença.
Aqui, nos Estados Unidos, na organização Milionários Patrióticos, nós percebemos que é um problema global e precisa de uma solução global. E o presidente Lula conseguiu o apoio de alguns outros países, acho que França, Espanha e África do Sul. Mas acho que certamente há oportunidade de conseguir mais nações para o nosso lado. Porque não podemos deixar algumas pessoas ficarem tão ricas e terem tanto poder político a ponto de influenciarem de forma indevida governos e assim conseguirem mudar regras e ficarem ainda mais ricas. Por isso estamos tentando garantir a bilhões de pessoas no mundo que elas também serão tratadas de forma justa e esperamos atrair mais pessoas para se juntarem a nós e na defesa desta proposta de cobrar mais impostos dos super-ricos.