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G20 SOCIAL

Um dia que entra para a história das maiores economias do mundo: G20 Social escuta vozes da sociedade civil internacional

Com cerca de 180 atividades autogestionadas apenas neste primeiro dia (14) de evento, o G20 Social comprova a força de organização da sociedade civil, bem como o desejo da população em influenciar nos eixos de debate do G20. Um fato histórico em tempo presente, e que será continuado pela presidência sul-africana no próximo ano.

14/11/2024 19:30 - Modificado há 4 meses
Atividades autogestionadas ocorreram durante todo o dia no Espaço Kobra, no Boulevard Olímpico Foto:  Isabela Castilho/ Audiovisual G20 Brasil
Atividades autogestionadas ocorreram durante todo o dia no Espaço Kobra, no Boulevard Olímpico Foto: Isabela Castilho/ Audiovisual G20 Brasil

"A população não se interessa por política". Uma ideia que circunda mesas de bares, jantares em família e debates acadêmicos. Que extrapola décadas, classes e fronteiras. Mas de qual noção de política exatamente essa frase dá conta? Este primeiro dia de trabalhos do G20 Social nos sugere uma resposta: a população não gosta da política que não é convidada a construir. Quando convidada, participa.

Com milhares de metros quadrados ocupados pelas mais diversas faces e vozes, debatendo, simultaneamente, centenas de temas de impacto global, a sociedade civil do mundo demonstra que tem a gana de participar dos processos políticos, mas não como simples destinatários de projetos aprovados por agentes públicos. Um povo que não seja personagem opaco, acionado apenas em discursos populistas, mas que seja protagonista das próprias pautas, com poder de incidência nas decisões públicas. 

A partir do aceite a este chamado inédito à estrutura do G20, só nesta quinta-feira (14) foram cerca de 180 atividades autogestionadas, com os mais distintos eixos em discussão. Direito das pessoas com deficiência, a centralidade das favelas para soluções internacionais; autorização de residência para imigrantes investidores em economia verde; filantropia para o desenvolvimento social; desafios para o investimento público no enfrentamento ao racismo a partir das juventudes; o protagonismo dos catadores e catadoras de  materiais recicláveis na liderança da economia circular. Estes são somente alguns exemplos das atividades que aconteceram hoje.

Breviário de atividades

O painel “O alto retorno do investimento na primeira infância na promoção do capital humano e estratégico de combate à pobreza e à desigualdade” discutiu como a prioridade para as crianças nos primeiros anos de vida vai além de uma questão de justiça social, mas se mostra como estratégia poderosa para o desenvolvimento humano e econômico, como chave para romper ciclos de pobreza e desigualdade. “A realidade da pobreza atinge a todos, mas, sobretudo, às famílias com crianças pequenas. São 39% das crianças vivendo abaixo da linha da pobreza”, apresentou Dandara Ramos, professora associada de epidemiologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

No painel “Superação das desigualdades entre mulheres e homens no mercado de trabalho”, lideranças femininas da de centrais sindicais trataram sobre a urgência de respeito ao dever da igualdade salarial, uma vez que a obrigatoriedade existe em lei desde 1943 no Brasil, com a implementação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). “Somos mais de 50% da população. Não dá para ser maioria de votantes e de pessoas no país e não ser mais nada. Temos uma lei que garante igualdade salarial e, infelizmente, os patrões querem tirar isso de nós”, pontuou Celina Arêas, da Secretaria da Mulher da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

Mapeamento da biodiversidade e arqueologia da Amazônia”, foi o tema do painel que guiou debates a respeito da necessidade de maior fomento à proteção dos territórios e da bioeconomia. Os painelistas recordaram que foi nesta edição do G20 que a questão, pela primeira vez, foi considerada com a centralidade devida, com as primeiras reuniões da Iniciativa de Bioeconomia do fórum. “Nossas pirâmides são as nossas florestas, ‘construção’ dos nossos povos tradicionais. Uma coisa importante para entendermos é que é difícil aos países tropicais compreender como manejar tamanha abundância e é nesse sentido que os povos das florestas nos indicam os caminhos”, disse Eduardo Neves, do Projeto Amazônia Revelada.

Ciência: o caminho para combater a desinformação e seus custos negativos para a vida”, foi um painel que destacou a importância da integridade da informação na construção de uma sociedade democrática, pacífica, inclusiva e sustentável. Salientou-se a importância de abordar os desafios contemporâneos de forma proativa e colaborativa, bem como os dilemas das fake news aos processos eleitorais democráticos. “Em diversas eleições imagens fraudadas foram utilizadas para alterar a opinião pública, vinculando candidatos e candidatas a ideias e ações inverídicas”, apresentou Ana Regina Rego, coordenadora da Rede Nacional de Combate à Desinformação, que exibiu exemplos nacionais, indianos, estadunidenses e do parlamento europeu. 

Um dia que entra para a história

O G20 Social, como uma "terceira trilha" do maior fórum de cooperação econômica mundial, é uma inovação da presidência brasileira ao grupo, e que será continuada pela presidência sul-africana no próximo ano. Um fato histórico em tempo presente, que neste primeiro dia do evento já deixa sua marca às maiores economias do mundo. Não é sobre “dar voz”, mas ao revés, “dar ouvidos”. A sociedade civil há muito já fala, o ponto de mudança está em ser escutada. Esta é a premissa do encontro que neste 14 de novembro tomou forma no centro do Rio de Janeiro. 

Amanhã (15) e sábado (16) as agendas continuam, com diversas outras atividades autogestionadas programadas, plenárias com autoridades nacionais e internacionais, feiras, intervenções artísticas e festival musical. Tudo e todos alinhados a um propósito: um mundo mais justo e um planeta sustentável. 

Por Franciéli Barcellos

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