“O Planeta já não espera para cobrar da próxima geração”, alertou Lula na abertura da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas
Em discurso histórico, o presidente brasileiro expôs a inação global diante de crises climáticas, geopolíticas e sociais, cobrando reformas estruturais e comprometimento efetivo dos líderes mundiais para solução dos problemas. Lula convocou todos os países para a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza que será lançada em novembro, na reunião de Cúpula do G20.

Por Tiago Santos de Souza / Site G20 Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um dos discursos mais contundentes de seu mandato durante a abertura da 79ª Assembleia Geral da ONU. Na fala ele misturou crítica e apelo, expôs a incapacidade das grandes potências de se unir para enfrentar os desafios globais e destacou o esforço necessário em diversos setores para transformar a realidade mundial. "Andamos em círculos, entre compromissos possíveis que levam a resultados insuficientes", afirmou.
Lula não poupou críticas ao estado atual das negociações globais, começando pela aprovação do Pacto para o Futuro, que foi conquistada "com dificuldade", revelando o enfraquecimento da capacidade de diálogo entre as nações. Para o presidente brasileiro, esse pacto é uma representação do paradoxo do nosso tempo, onde compromissos frágeis e insuficientes se tornaram a regra. "Vivemos momentos de crescentes angústias, frustrações, tensões e medo", apontou.
O cenário de conflitos internacionais foi a abertura do discurso. Lula destacou que 2023 bateu o recorde de maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial, com gastos militares globais alcançando a marca de 2,4 trilhões de dólares. O presidente brasileiro lamentou que enquanto esse volume imenso de recursos é destinado à guerra, milhões de pessoas permanecem famintas e sem apoio diante da mudança climática. "O uso da força, sem amparo no Direito Internacional, está se tornando a regra", criticou, ressaltando o impacto devastador das guerras simultâneas em lugares como Ucrânia, Gaza e mais recentemente no Líbano.
Lula também alertou para a crise humanitária que se alastra no Oriente Médio, especialmente em Gaza e na Cisjordânia, descrevendo a situação como "uma das maiores crises humanitárias da história recente". Ele lamentou o ciclo de violência, onde “O direito de defesa transformou-se no direito de vingança”, agravando o sofrimento dos civis e impedindo um cessar-fogo que poderia salvar vidas.
O presidente brasileiro lamentou que enquanto esse volume imenso de recursos é destinado à guerra, milhões de pessoas permanecem famintas e sem apoio diante da mudança climática. "O uso da força, sem amparo no Direito Internacional, está se tornando a regra", criticou, ressaltando o impacto devastador das guerras simultâneas em lugares como Ucrânia, Gaza e mais recentemente no Líbano.
Mudança do Clima
Outro eixo central do discurso foi a crise climática global. O presidente brasileiro criticou a falta de cumprimento dos acordos climáticos e a inércia na redução das emissões de carbono. Ele apontou que 2024 caminha para ser o ano mais quente da história moderna e detalhou os desastres ambientais, desde furacões no Caribe até enchentes no sul do Brasil, como exemplos claros dos impactos já sentidos. "O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos", afirmou, reforçando que o Brasil assumiu sua responsabilidade, reduzindo o desmatamento da Amazônia em 50% e se comprometendo com a erradicação completa até 2030.
Lula também lembrou que o Brasil sediará a COP-30 em 2025, apostando no multilateralismo como caminho para enfrentar a urgência climática. Reforçou que o Brasil é um líder na transição energética, com a matriz limpa e grandes investimentos em biocombustíveis, energia renovável e hidrogênio verde.
Para Lula há a necessidade de utilizar avanços tecnológicos para o benefício da humanidade, especialmente na erradicação da fome e na redução das desigualdades. Ele enfatizou que, embora a Inteligência Artificial ofereça soluções inovadoras, esses recursos não estão sendo adequadamente distribuídos. Para ele nada é tão absurdo e inaceitável quanto a persistência da fome e da pobreza, quando temos à disposição tanta abundância, tantos recursos científicos e tecnológicos e a revolução da inteligência artificial.
"O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos", afirmou, reforçando que o Brasil assumiu sua responsabilidade, reduzindo o desmatamento da Amazônia em 50% e se comprometendo com a erradicação completa até 2030.
Lula defendeu que a tecnologia, em especial a IA, pode ser um poderoso aliado na criação de soluções eficazes para combater a insegurança alimentar global. No entanto, ele também alertou para os perigos de seu uso desregulado, que atualmente aprofunda ainda mais as disparidades econômicas e sociais. O desafio é garantir que as inovações tecnológicas, como a IA, sejam utilizadas de forma ética e equitativa, de modo a beneficiar a todos e não apenas as grandes corporações.
Lula convidou todos os países a integrarem a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza que será lançada durante a Cúpula de Líderes do G20 em novembro de 2024, no Rio de Janeiro. O objetivo é atrair o maior número possível de países signatários e parceiros internacionais comprometidos com a criação de políticas públicas transformadoras que possam reduzir a fome e a pobreza no longo prazo. A iniciativa é aberta a todos os países, não apenas aos membros do G20, o que demonstra o caráter inclusivo e global da proposta.
Taxação das Grandes Fortunas
Outro ponto de destaque no discurso foi a proposta de taxação das grandes fortunas como uma medida para enfrentar as desigualdades crescentes exacerbadas pela globalização. Lula criticou o acúmulo desproporcional de riqueza nas mãos de poucos, enquanto milhões de pessoas ao redor do mundo continuam a viver em condições de extrema pobreza.
“A fortuna dos cinco principais bilionários mais que dobrou desde o início desta década, ao passo que 60% da humanidade ficou mais pobre”. Na história humana nunca tantos tiveram tão pouco e tão poucos concentraram tanta riqueza. “Os super-ricos pagam proporcionalmente muito menos impostos do que a classe trabalhadora”, e para corrigir essa anomalia, o Brasil tem insistido na cooperação internacional para desenvolver padrões mínimos de tributação global.
Lula reforçou que a redistribuição de riqueza é essencial para combater a desigualdade, e exige esforço internacional para a criação de mecanismos internacionais que garantam a taxação das grandes fortunas. O presidente defendeu que esses recursos podem ser revertidos para políticas públicas, especialmente aquelas que visam erradicar a fome e a pobreza no mundo. É preciso repensar o sistema econômico global, onde a riqueza excessiva de alguns poucos contribui para a perpetuação da miséria de milhões. No G20 há o esforço de pensar e implementar uma taxação justa que possa financiar programas sociais e iniciativas de combate à fome.
Na história humana nunca tantos tiveram tão pouco e tão poucos concentraram tanta riqueza. “Os super-ricos pagam proporcionalmente muito menos impostos do que a classe trabalhadora”, e para corrigir essa anomalia, o Brasil tem insistido na cooperação internacional para desenvolver padrões mínimos de tributação global.
Reforma da Governança Global
No discurso do presidente Lula destacou a importância de uma reforma na governança global para enfrentar os desafios contemporâneos de maneira mais equitativa e eficiente. Lula argumentou que as estruturas internacionais atuais, criadas no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, já não refletem as realidades e necessidades do mundo atual, e que essa defasagem é um obstáculo para a resolução de problemas globais como a fome, as mudanças climáticas e a desigualdade. Para ele, a Carta da ONU tem 80 anos e não está dando conta dos desafios atuais.
Reforma das Instituições Internacionais Lula destacou que organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial precisam passar por reformas significativas para serem mais representativos e democráticos. Ele enfatizou que essas instituições ainda são dominadas por países desenvolvidos, o que perpetua a desigualdade no cenário internacional, especialmente em relação às nações em desenvolvimento.
"Várias nações, principalmente no continente africano, estavam sob domínio colonial e não tiveram voz sobre seus objetivos e funcionamento. Inexiste equilíbrio de gênero no exercício das mais altas funções. O cargo de Secretário-Geral jamais foi ocupado por uma mulher”.
"Várias nações, principalmente no continente africano, estavam sob domínio colonial e não tiveram voz sobre seus objetivos e funcionamento. Inexiste equilíbrio de gênero no exercício das mais altas funções. O cargo de Secretário-Geral jamais foi ocupado por uma mulher”.
Reforma econômica global
O presidente brasileiro criticou a falta de acesso a recursos financeiros para países de renda média e baixa, destacando as taxas de empréstimos desiguais e injustas. Para Lula, as nações mais pobres estão financiando as mais ricas, uma "inversão perversa" do conceito de ajuda global. "É um Plano Marshall às avessas", declarou, referindo-se à histórica ajuda americana após a Segunda Guerra Mundial. Ele defendeu reformas profundas no FMI e no Banco Mundial, sem as quais, segundo ele, não haverá uma mudança efetiva para os países em desenvolvimento.
Além disso, Lula voltou a falar da desigualdade extrema no mundo, mencionando o lucro exorbitante das maiores empresas do mundo e o aumento da fortuna dos bilionários, enquanto 60% da humanidade empobrece. Ele fez um apelo para uma tributação global mais justa, onde os super-ricos paguem sua parte proporcional, e a urgência de uma política fiscal internacional solidária.
O discurso de Lula na ONU foi um chamado à ação. Para ele, o Brasil continuará lutando por uma governança global mais inclusiva, pelo fim da fome e da pobreza e pela preservação do meio ambiente, enquanto desafia o status quo das potências globais. " Não podemos esperar por outra tragédia mundial, como a Segunda Grande Guerra, para só então construir sobre os seus escombros uma nova governança global”. Lula acredita que o futuro depende de nossa capacidade de transformar palavras em ações e deixou claro que o multilateralismo, a justiça social e ambiental são os pilares centrais para construir um mundo mais equilibrado e sustentável.