“Olhar o mundo com os olhos de criança”: o que a experiência do Kids 20 ensina sobre comunicação e participação social
O Kids 20 foi uma iniciativa pioneira da comunicação do G20 Brasil. Por meio de parceria com escolas públicas das regiões centro-oeste, nordeste e sudeste do país, centenas de estudantes experienciaram a rotina de imprensa internacional, participando de coberturas no Brasil, China e Estados Unidos. Entre os entrevistados, uma ganhadora do Nobel da Paz, o ministro das Finanças da Rússia, o presidente do Supremo Tribunal Federal e diversas autoridades do executivo federal.

29 de janeiro de 2024, começaram, na prática, os trabalhos do Kids 20, mais uma iniciativa inédita e ambiciosa da presidência brasileira do G20, esta, na área de comunicação. Já em grande estilo, as pequenas e os pequenos iniciaram com uma entrevista exclusiva que muitos veículos consolidados ainda não conseguiram, com o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
Após esta entrevista, no evento inaugural do Business 20 no Brasil, grupo de engajamento empresarial do G20 Social, foram outras dezenas de coberturas elogiadas por pais, professores, jornalistas que dividiam a sala de imprensa, pelos entrevistados e representantes internacionais. A doutores, embaixadores e autoridades federais, acostumados a responder sobre o cenário geopolítico mundial, cifras de negociações econômicas complexas e/ou temas governamentais espinhosos, muitas vezes foram as e os jovens repórteres que fizeram as perguntas mais difíceis. “Se o G20 fosse um super-herói, qual ele seria?”, “Como as ações do grupo interferem na vida de quem mora na periferia, como nós?”, “Como esse tema tem conexão com o que aprendemos na escola”?, foram alguns dos questionamentos das crianças e adolescentes ao longo do ano.
Com atuação inicial nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, jovens de outros estados brasileiros, das regiões centro-oeste, nordeste e sudeste, também atuaram em reuniões técnicas, ministeriais, eventos paralelos e encontros de grupos de engajamento, estudando as mais diversas pautas e falando com nomes como a ganhadora do Nobel da Paz de 2021, a jornalista e escritora Maria Ressa, o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, o presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Luís Roberto Barroso, e a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
Para Carlos Alberto Jr., coordenador de comunicação do G20 Brasil, responsável por botar a iniciativa “na rua”, ou melhor, nos centros de convenções, espaços de reunião e salas de imprensa, a participação dos alunos e alunas contribuiu em conectar os temas do grupo à vida das pessoas. “Quando a gente coloca os estudantes no G20 a gente leva o G20 para dentro da casa das pessoas e, com isso, a gente alcança o nosso objetivo de difundir os temas. Quando eles vão para as coberturas dos eventos e produzem os conteúdos eles conseguem exatamente traduzir temas complexos para as questões do dia a dia”, disse o jornalista.

Uma experiência que para Carlos Lima, coordenador do Imprensa Jovem, projeto da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo que este ano foi alçada à condição de política pública, “renovou as esperanças”. “Esperança de ampliar ainda mais as vozes de crianças e adolescentes em espaços de decisão. Durante o G20, os jovens repórteres de agências de notícias espalhadas pelo Brasil demonstraram liderança não apenas ao fazer perguntas pertinentes, mas também ao sugerir ideias que poderiam ser incluídas nas pautas de governos e da sociedade civil”, afirmou o coordenador do Núcleo de Educom da prefeitura paulistana. “O mundo só tem a ganhar quando as vozes de crianças e adolescentes são ouvidas. Elas têm o poder de transformar perspectivas e trazer soluções inovadoras. Afinal, as vozes dos jovens importam”, continuou.
Quem complementa essa visão é Maíra Moraes, diretora-presidente da MultiRio, ao firmar que são propriamente os jovens os mais impactados pelos temas debatidos pelos líderes do G20. “Eles nos lembram que as decisões tomadas em fóruns como o G20 impactam diretamente as futuras gerações. Pensar neles é um chamado para que trabalhemos com ainda mais responsabilidade e compromisso. Ouvir de alunos frases como ‘eu nunca vou esquecer esse dia’ é o que traduz a importância de iniciativas como esta”, disse.
O Imprensa Jovem é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como prática de Alfabetização Midiática Informacional a ser replicada no mundo e foi o primeiro parceiro do Kids 20 no processo de estabelecimento da iniciativa. Já a MultiRio é uma empresa pública vinculada à Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, que há três décadas dedica-se integrar as novas tecnologias da informação e comunicação ao ambiente educacional e gerencia, entre outros projetos, a Agência de Notícias dos Alunos da Rede (Andar), os quais produziram a entrevista com Geraldo Alckmin ao início do ano.
E para os jovens, o que fica dessa experiência?
Você lembra qual era sua rotina durante a fase escolar? Os principais projetos que participou no colégio ou as memórias mais marcantes de atividades extraclasse? Se você já encerrou esta fase há muito tempo pode ser difícil chegar a esta resposta, mas para as crianças e adolescentes que cobriram o G20 essas memórias estão frescas e perdurarão por anos. Imagine chegar em casa depois do turno escolar, sentar à mesa com os pais e perguntado sobre como foi o dia poder responder “ah, hoje foi legal, entrevistei um ministro, um chanceler, uma nobel da paz”. Essa resposta pode ter sido a de uma centena de estudantes das redes públicas de ensino no Brasil, que neste ano integraram a equipe Kids 20. Dentre estes, Kamilly, Matheus, Pedro e Vitória, que falaram conosco sobre as experiências.
“O sentimento que ficou foi o de muita responsabilidade, até porque nós, que estávamos cobrindo o G20, éramos a voz dos jovens que não puderam comparecer. Eu diria que aprendi o quanto o G20 pode influenciar na vida dos estudantes, principalmente através de melhorias na educação. Foi só dentro do evento, estudando seu formato e entendendo a razão dele acontecer, que entendi que o G20 era realmente importante”, contou Kamilly Vitória Paiva, aluna do Ginásio Educacional Tecnológico (GET) Oswaldo Teixeira, escola parceira da Andar no Rio de Janeiro.
“Para mim, o momento mais marcante foi a entrevista com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macedo, durante a Cúpula de Líderes. Ele foi muito atencioso, nos elogiou e nos motivou a seguir o rumo do jornalismo. Ali eu senti que realmente estava fazendo algo diferente e que era motivo de orgulho até mesmo para alguém importante como um Ministro”, complementou seu colega Matheus Silveira.


E provando a ideia de que a juventude irá “dominar o mundo”, é que estudantes do Kids 20 não se limitaram ao já gigantesco arcabouço de pautas no cenário brasileiro, foram também à China e aos Estados Unidos para coberturas internacionais. As duas viagens foram frutos de convites muito especiais, a primeira por parte do próprio governo chinês, por intermédio da embaixada no Brasil, formando a comitiva estrangeira mais jovem a ser recebida no país, a segunda a fim de participar da Cúpula do Futuro da Organização das Nações Unidas (ONU), na cidade de Nova York.
Pedro Murilo Borges e Vitória Calado, do projeto Imprensa Jovem, que entre outras coberturas também estiveram no evento da ONU, definem a participação nestes espaços como um ocupar necessário, cientes que os jovens merecem mais credibilidade nas discussões sobre o futuro. “Eu acho que isso foi uma ocupação, nós estávamos lá para deixar bem claro que mesmo sendo jovens entendemos bem do assunto, porque nós estamos no meio onde os assuntos têm que ser debatidos, vivemos tudo isso”, falou Pedro.
“Sinto que isso funcionou para que a gente também com o objetivo de futuramente fazer pontes para que outras pessoas também possam ocupar esses espaços, que é delas por direito, mas que não conseguem ter essa esperança”, acrescentou Vitória, que entrou no projeto como maneira de driblar a timidez e hoje é uma das principais repórteres da equipe, tendo, em março, conseguido uma resposta do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em coletiva do G20.
Os dois adolescentes são colegas na Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Duarte, em São Paulo e, como os cariocas Kamilly e Matheus e demais estudantes que participaram do Kids 20 ao longo do ano, terminam a participação do G20 com uma certeza: não há como frear a gana da juventude que não deseja ser apenas a voz do futuro, mas do agora.
O que os mais jovens nos ensinam
Ao fim das tantas coberturas, a participação jovem no G20 Brasil não apenas se concretizou como uma grande oportunidade aos e às estudantes, mas, acima disso, à própria estrutura de comunicação e debates do grupo, que pela primeira vez na história se abriu a projetos colaborativos, fortalecendo o elo com a sociedade civil e reforçando, com as gerações do futuro, a importância do jornalismo responsável e da comunicação pública. Um passo importante, em um palco internacional, de admissão e fomento ao protagonismo jovem na construção de narrativas e soluções globais. Reconstruindo a frase tida como de autoria do pintor Henri Matisse, “é preciso, mais do que nunca, olhar as maiores economias do mundo com os olhos de uma criança”. Um exemplo não apenas do frescor e autenticidade às discussões que os jovens podem entregar, mas da potência transformadora de processos como este para um mundo mais justo e um planeta mais sustentável.
A expectativa é que, como o G20 Social, com o qual o ministro de Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul, Ronald Lamposa, já se comprometeu, o Kids 20 também continue em execução na próxima presidência do fórum. Reuniões com professores sul-africanos já foram estabelecidas, e estes mostraram interesse na iniciativa.
Por Franciéli Barcellos